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prosa [ ]

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por [Bernadete_Piassa ]

2010-01-06  |     | 



Todo mundo precisa ter uma paixão; a de Solange era pensar. Muitas pessoas se distraem com TV, livros, telefone, internete, quebra-cabeças.... Solange passava horas só pensando. Gostava de refletir sobre as pequenas e grandes coisas da vida. Detalhes que passariam despercebidos para outros eram profundamente analisados por ela. Vivia num mundo de pensamentos e emoções. Um mundo de águas profundas, onde tudo era frágil e importante. Um mundo que podia se desintegrar ou ser reconstruído muitas vezes por dia. Às vezes, queria poder sentir menos, ser menos sensível, ser como todos os outros, em vez de ficar só pensando ...

Seus relacionamentos não eram fáceis. Solange exigia muito ou queria distância, estava sempre muito triste ou muito feliz. Quem poderia viver naquela montanha-russa? Ela ansiava por normalidade, mediocridade, o tempo todo sabendo que nunca ficaria satisfeita com isso.

Quando conheceu o fotógrafo, ele a intrigou. Um fotógrafo! A palavra abria todos os tipos de possibilidades na sua cabeça. Ele lhe disse que era um marchand de fotografias raras e que gostava de colecionar pinturas. Solange ficou curiosa para ver a casa dele e começou a imaginar como seria. Então, um dia, ele a convidou para visitá-lo e foi nesse dia que ela viu o quadro pela primeira vez.

O quadro estava pendurado na parede esquerda do quarto do fotógrafo, ao lado da cama. Foi só dar uma olhadinha e Solange se apaixonou. Mais tarde, não conseguiria se lembrar se tinha se apaixonado primeiro pelo quadro ou pelo fotógrafo. Ou será que tinha sido pelos dois, já que eles vinham juntos - o objeto de arte e o homem que amava tanto a arte que vivia rodeado por ela?

O quadro a hipnotizou. Quando visitava o fotógrafo, não conseguia tirar os olhos da pintura. Adorava ir dormir olhando-a e acordar sabendo que ela estaria lá para ser admirada novamente logo que acordasse. Havia muitos outros quadros e fotografias na casa. Mas nenhum deles a tocava tanto quanto o quadro ao lado da cama.

As árvores da pintura pareciam falar com ela e a deixavam triste. Por que os troncos eram tão nus e compridos, como se estivessem se esticando para o céu pedindo ajuda? Os cavalos eram tão pequenos, tão sem proporção em comparação com as árvores e o resto da paisagem ... E quem era aquela pessoa andando pela floresta, aonde estaria indo depois de passar sobre aquela pequena ponte? Havia tanta coisa para ver ... Cada vez Solange descobria um outro detalhe e perdia-se nele, consumida por ele. Tudo era tão calmo, tão melancólico e, ao mesmo tempo, tão vivo! Gostaria muito de poder possuir o quadro, embora no seu íntimo soubesse que ele jamais seria dela. Como o fotógrafo, que nunca seria dela.

Quando se encontraram pela primeira vez, ele lhe disse que não estava preparado para ela, que tinha sido apanhado de surpresa. Elogiou a sua beleza, a inteligência, mas Solange acabou entendendo, mais tarde, que ela tinha muitas cores enquanto ele preferia moderação. Ela era verão e ele era outono, ela era latina e ele europeu. Ele não estava pronto para mergulhar nas águas profundas em que Solange tinha nadado toda a vida. Ela ansiava por paixão, que ele era capaz de ter por um certo tempo. Às vezes, porém, ele queria tranquilidade, queria apenas se concentrar na sua arte e desaparecia num mundo ao qual ela não pertencia.

Nesses momentos em que ele parecia mais interessado nas fotografias raras do que nela, Solange não podia suportar a sensação de abandono. Seus pais a haviam ignorado sempre e ela tinha crescido com medo de ser deixada de lado. Precisava de atenção todo o tempo. Como uma criança, precisava de alguém constantemente lhe dizendo eu a amo, você é a mulher mais bonita do mundo, você é especial. Se dormisse com alguém, tinha de ser abraçada a noite toda. E o fotógrafo não gostava disso, não tinha essa necessidade. Não havia sido negligenciado quando criança. Não conhecia o medo, a necessidade de ser acalentado, de sentir-se seguro finalmente.

Solange percebeu que fatalmente ele se cansaria dela, de suas inseguranças. Antes que esse dia chegasse, sabia que teria que deixá-lo. Essa era a história da sua vida: muitos homens se apaixonando por ela e ela deixando todos apenas para não correr o risco de ser deixada antes. Não conseguia suportar a rejeição. Preferia ir embora a ser abandonada, mesmo sem ter certeza de que o futuro seria negro como temia.

Como tinha feito tantas vezes, Solange preparou-se para deixar o fotógrafo. No entanto, desta vez não era tão fácil ir embora: havia o quadro. Como poderia viver sem vê-lo outra vez, perder-se nele, e fingir que estava lá no meio das árvores, atravessando a ponte para algum lugar? Seria mais fácil abandonar o fotógrafo, mesmo que isso significasse sofrer um pouco. Afinal, não queria se machucar mais tarde. Mas o quadro, o quadro ...

Solange deixou o fotógrafo. Claro que deixou. Mais tarde, lamentou a decisão, achando que tinha se precipitado. Mas o deixou. Como sempre fazia com os homens. Como achava que continuaria fazendo para sempre.

A vida continuou. Solange fez tudo que normalmente fazia para fingir que estava viva, tentando ignorar o buraco no seu coração, a insegurança. A lembrança do quadro era como um fantasma puxando-a de volta ao passado, fazendo com que desejasse estar naquela floresta, atravessando a ponte para ir ... aonde? Solange não sabia para onde estaria indo. Só sabia que a ponte a levaria para terras inexploradas, para um mundo de magia com o qual sempre tinha sonhado.

Lembrava-se daquele quadro sempre que via outros. Qualquer pintura parecia desbotada em comparação com aquela. O quadro aparecia em seus sonhos: as árvores esticando os braços, chorando, os cavalos pastando tranquilamente, as cores do outono, os detalhes de uma vida pronta para ser vivida.
Se pudesse ver o quadro só mais uma vez, talvez o esquecesse ou pudesse guardá-lo de tal maneira na memória que não precisaria mais dele: ele se tornaria parte dela. Mas como? Não estava mais em contato com o fotógrafo, que tinha deixado chateado, ferido. Talvez pudesse obter uma reprodução da pintura? Duvidava que o pintor fosse famoso. Provavelmente era apenas um artista local, que tinha pintado uma paisagem bonita e desaparecido antes de se tornar famoso.

Continuou pensando sobre o quadro, incapaz de esquecê-lo. Então, um dia, ela - que era incapaz de desenhar até uma casinha ou um gato - pegou um lápis e tentou reproduzir a pintura que ainda estava tão viva na sua imaginação. Não, não, não! Não era exatamente assim. Apagou e começou de novo; apagou e recomeçou. Os cavalos eram muito pequenos ... As árvores não deviam ser tão altas, ou talvez devessem ser mais altas ainda ... A ponte tinha que estar virada para aquele lado ... Talvez colocasse a ponte em outro lugar ... Talvez o rio devesse ser maior e quem sabe até desenhasse um pequeno barco sobre ele com um menino e o pai pescando. Os dois estariam concentrados na pescaria. Para eles, esse era um momento especial. Sentiam-se felizes juntos, mas levavam a pesca a sério. Solange podia imaginá-los saindo de casa cedinho: a mãe preparando alguns sanduíches e sucos e colocando tudo numa toalha de mesa que iria amarrar com um nó nas duas extremidades. Pai e filho entrariam no carro e começariam o passeio sem falar, o pai fumando e o filho olhando para as árvores que passavam, pensando sobre o peixe e, que se pescasse um bem grandão, diria a todos os amigos: ontem fui pescar com meu pai e peguei um peixe deste tamanho! Já orgulhoso do peixe que iria pescar, orgulhoso de ir pescar com o pai enquanto a irmã ficava em casa ... O pai pensando como tinha sorte de ter um filho para ir pescar com ele. Quando o menino ficasse mais velho, iria ensiná-lo a caçar. Agora era pequeno demais para lidar com uma arma e com a responsabilidade. Talvez pudessem caçar veados juntos. O menino viria a ser um ótimo caçador. Era um menino bom. Prometia ...

Solange pintou o seu conto de fadas, mas depois que acabou resolveu mudar a paisagem. Não precisava mais de uma ponte. E as árvores deviam ser mais verdes, mais felizes. Iria pintar a pickup do pai. Iria pintá-la de vermelho, para que a imagem ficasse mais viva. A porta da pickup estaria aberta e no interior se veria um rádio, sugerindo a ideia de música no ar ...

A pintura que havia começado como uma reprodução tomou vida própria. Solange acrescentou mais e mais cores, cada vez desenhando o pai e o filho mais felizes. Os dois estavam sorrindo agora: Ah, que alegria pescarem juntos!

Antes, Solange havia passado o tempo pensando sobre qualquer coisa. Agora, só conseguia pensar sobre a pintura: as cores que gostaria de acrescentar, como iria transmitir seus sentimentos nela ... Da mesma maneira que a lembrança do fotógrafo tinha se apagado lentamente na sua memória, a imagem da outra pintura, aquela com a pequena ponte, começou aos poucos a se esvanecer. Agora, Solange estava inebriada pela própria arte.

Depois que acabou aquele primeiro quadro, ela começou outro, e mais outro. Sua vida tornou-se cheia de arte. Quanto mais se enriquecia com a pintura, menor o seu medo de abandono se tornava.

Quando Solange conheceu outro homem interessante, ela se entregou completamente àquela paixão: pela primeira vez não tinha medo de amar e ser rejeitada. Sabia que teria sempre a sua arte para sustentá-la nos momentos difíceis. Os homens podiam ir e vir, tudo poderia mudar exteriormente. Dentro dela, um mundo de beleza se revelara e esse mundo precioso seria seu companheiro mais fiel para o resto de seus dias.

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